Querida mamã:
Apesar de tu não teres querido que eu nascesse, não posso deixar de te chamar "Mamã". Mamã o caralho, dadas as circunstâncias adequa-se mais um “minha grande vaca”, mas pronto, deixamos o mamã que fica mais comovente.
Escrevo-te do mundo do além.
Só para te provar a existência do além, não fosses tu ser uma ateísta herege. Até pedi a Deus, um bacano pá, para me enviar a carta por correio azul celeste,
Para te dizer que estava muito feliz quando comecei a vier no teu seio… Eu desejava nascer, conhecer-te…
Apesar de ainda não ter cérebro para pensar e sentir, claro, mas as pessoas que estão a escrever isto por mim têm de dizer estas coisas para te fazerem sentir uma puta.
E pensava que um dia seria uma criança muito alegre.
Apesar de saber que iria ser metido na casa pia e ser sodomizado pelo Bibi, o meu coraçãozinho (e não só) rejubilava de alegria porque sei que teria uma próstata, e portanto iria gostar.
Sonhei poder ir à escola e chegar a ser um homem importante…
No entanto a opção de vir a ser um ranhoso a coser sapatos na fábrica desde os 10 anos ou acartar tijolos de sol a sol não estava bem nos meus planos.
Eu acreditava que, quando se completassem os noves meses de estar juntinho ao teu coração
e ao intestino, rins e fígado
e nascesse, todos lá em casa se iriam alegrar com a minha chegada.
mesmo sabendo que iriam passar necessidades e de já serem dez em duas assoalhadas.
Mas tu não pensavas como eu -
ia-te mesmo foder a vida toda e estavas em pânico
não é verdade Mamã?... –. E um dia, quando estava tão feliz a brincar no mais íntimo das tuas estranhas,
pontapezinho aqui, cambalhotinha ali, umas braçadas na piscina amniótica acolá
, senti algo muito estranho, que não saberia como explicar: algo que me fez estremecer.
Apesar de ainda não ter sensibilidade para isso, as pessoas que estão a escrever isto gostam muito da palavra estremecer e achámos que dava um toque de tragédia à coisa.
Senti que me tiravam a vida!...
Antes mesmo de eu sentir que tinha vida, o que é ainda mais interessante, mamã.
Uma faca surpreendeu-me
– Uma faca mamã, não conseguiste arranjar o citotec? Deves ter ficado toda fodida por dentro. O pauzinho de videira também não era mau, mas uma faca é muito mais à frente. -
quando eu brincava feliz e quando só desejava nascer para te amar
apesar de ainda não ter a mínima consciência da minha existência.
Naquele momento, não compreendi quem me tirava a vida…
É natural. Costuma acontecer quando não se tem ainda sistema nervoso central.
Diz-me, Mãe: Quem poderia entrar cruelmente dentro de ti e chegar onde, com tanta segurança, eu me encontrava, a fim de me matar?
O papão? O pau de videira? A agulhinha de crochet? O raminho de salsa?
Quem é que sabia que eu estava lá?... Quem foi, mamã?
Foi a parteira? Porque não fostea um médico mamã?
Não sei o que cheguei a pensar…
Não cheguei mesmo, a falta de cérebro impediu-me.
Perdoa-me, mas por um momento a dúvida passou pela minha cabeça e
acreditei que só tu o poderias ter feito.
Perdoa-me este mau juízo.
Hehe, agora apanhei-te com esta chantagenzinha emocional, eu sabia desde o princípio que foi a puta da mamã, ou melhor, os senhores que estão a escrever isto por mim sabiam, mas isto assim é muito mais manipulador.
Como poderia eu imaginar que uma mãe fosse capaz de matar o seu filho quando, em casa, não maltratam nem o gato, nem a televisão?
Ainda se maltratassem o rádio e a torradeira, ou dessem grandes enxertos de porrada no meu irmãozinho mais novo, eu percebia.
Agora, mamã, sei tudo. Estou aqui no outro mundo e um companheiro que teve a mesma sorte que eu, disse-me que sim, que foste tu…
Um grande espertalhão, muito mais inteligente que eu.
Disse-me que há mães que matam os filhos antes de nascerem. Mãe, como foste capaz de me matar?
Devias estar mesmo desesperada, mamã
... como foi possível que tivesses feito tal coisa contra mim? Por acaso pensavas comprar uma máquina de lavar ou um aspirador
, um telemóvel ou querias ir de férias para a neve? -
, com os gastos que talvez eu te iria causar? O mau conselho que te deram escutaste-o antes de ouvir o teu coração.
Com isto não te estou a desresponsabilizar mãe, continuas a ser uma grande vaca na mesma, mas para não te sentires tão mal vamos fingir que és atrasada mental e que não sabes tomar decisões e a culpa é toda das outras pessoas muito más que querem que as crianças sejam desejadas e amadas e façam parte de um projecto de vida.
Como consentiste que me cortassem aos bocados, me atirassem para um balde?
Uma vez vi um fetozinho num frasco de formol e achei muito mais cool.
Tinha tantas ilusões… tiraste-mas todas.
Pensava poder vir a ser um bom engenheiro ou um sacerdote santo…
Só depois descobri que também podia calhar ser trolha, paneleiro ou homem do lixo e achei que não era tão bom.
Poderia ter sido um bom filho e ser um bom pai,
um psicopata daqueles que aparecem na TV depois de matar 50 pessoas em directo
mas tu negaste-me tudo…
Sabes uma coisa, Mamã?... Ontem estive a falar com Deus
e com a Alexandra Solnado -
e pedi-lhe que por favor me esclarecesse tudo acerca da verdade da minha morte. Ele abraçou-me com muito carinho e disse-me muitas coisas…
E fiquei a pensar, mas se estou ali ao pé de Deus que me dá carinho, o que é bem melhor que levar pontapés da vida aí na terra para que raio quero eu nascer?
As mesmas que sempre sonhei escutar dos teus lábios, quando esperava que, um dia, me embalasses nos teus braços. Disse-me que só Ele é o Senhor da vida, e que ninguém tem o direito de a tirar.
É muito bonzinho o senhor, apesar de um bocadito ditador, às vezes nem tenho bem a certeza se é Deus ou o Pinochet, que também pensava assim.
Olha, mamã, já me ia esquecer que Ele me disse que terás de Lhe prestar contas do que fizeste!
Vais arder no fogo dos infernos! AHAHAHAH!
Dos meus olhos caíram torrentes de lágrimas e de saudade.
Sem ainda saber que te veria tão brevemente devido às complicações decorrentes às quais não sobreviveste, deixando os meus irmãozinhos órfãos.






