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Naqueles dias nublados, Robert Neville não tinha nunca a certeza de quando o Sol se punha, e, muitas vezes eles já estavam nas ruas antes de ele conseguir voltar. Se tivesse sido mais lógico, teria conseguido calcular, aproximadamente, quando chegariam; no entanto ainda se regia pelo velho hábito de adivinhar a chegada da noite olhando o céu, e naqueles dias cheios de nuvens esse método não funcionava. Por causa disso ficava em casa nesses dias. De cigarro pendurado ao canto da boca, dava voltas à casa na penumbra lenta da tarde, soprando fumo por cima do ombro. Verificou todas as janelas para ver se algum dos painéis de madeira estava solto. Depois de ataques violentos as tábuas estavam normalmente rachadas ou totalmente arrancadas (...)".
Assim começa aquele que foi considerado por muitos, entre os quais o lendário Stephen King, como o Melhor Livro de Terror do século XX. Escrito por Richard Matheson em 1964, "
I am Legend" é, na sua faceta literária, uma obra sobre um mundo infestado de vampiros, onde as cabeças de alho ainda eram a melhor arma possível para Robert Neville, o último Homem à face da terra. Contextualizado num futuro muito próximo, a adaptação cinematográfica de Francis Lawrence - realizador do não mais do que interessante "
Constantine" - converte os alhos numa metralhadora, transforma o vinil de Beethoven num cd de Bob Marley e dissimula os vampiros de Matheson em mutantes derivados de uma cura falhada para o cancro, moldando e modernizando quase todos os elementos primários e secundários da composição literária de culto.
E por mais admirável e curioso que possa parecer, "
I am Legend" triunfa devido... à sua simplicidade. Simplicidade de mecanismos de acção, que permitem uma certa naturalidade dramática à trágica condição humana que Neville (Will Smith), a única e última esperança da humanidade, enfrenta. Apesar do leve e requintado toque de humor, Lawrence leva a sério o conceito de extinção de uma espécie, neste caso, a nossa, nunca permitindo que a acção ultrapasse essa representação, servindo-se do "fogo-de-artifício" apenas para aprofundar e abordar os mais diferentes níveis científico-religiosos da questão. E não fica por aí: ao criar uma forte ligação subordinada entre Samantha, a cachorra de Neville - que, diga-se de passagem, está para Smith, como a bola Wilson esteve para Hanks em "
Cast Away" - e a sanidade mental do herói, o realizador acaba por atingir matérias sociais e afectivas. Tudo, sem grandes manhas ou manias.
Onde foi gasto, então, o amplo e generoso - para ser simpático - orçamento de "
Eu Sou a Lenda"? A resposta é fácil: na construção gráfica dos mutantes e nos cenários desoladores de uma Nova Iorque desamparada em ruínas, que ao longo do filme é confrontada com recordações dos seus irrevogáveis instantes finais de vida, quando Neville relembra os últimos minutos que passou com a família. Estamos, portanto, perante um imponente filme, correcto? Errado. Todas as cartas de trunfo previamente explanadas esgotaram-se na primeira hora, deixando os últimos trinta minutos de fita à mercê da leviandade do costume de quem precisa de satisfazer gregos e troianos, miúdos e graúdos, salvar o mundo e justificar o título de herói. E assim, aquele que poderia ter sido um dos retratos psicológicos de culto mais bem conseguidos dos últimos anos, acaba por se converter de forma masoquista em apenas mais um blockbuster de acção para massas. Mas terminando como qualquer adepto benfiquista que se preze... "
para a próxima é que é!".